
Em minhas pesquisas sobre demência, ouvi desabafos e li depoimentos de parentes que afirmavam não conviverem mais com seus entes queridos quando esses atingiam estágio avançado da doença, “não é mais a minha mãe, é o Alzheimer que está aqui”. Era comum, logo em seguida, reencontrarem seus pais, mães e avós em pequenos detalhes, um olhar, um gesto, o relato de uma lembrança, um sorriso. Não era a demência, eram eles que estavam ali. E por isso, tudo valia a pena.
A demência está neste livro. Mas ele não é sobre ela. É sobre as pessoas que lidam com doenças como Alzheimer, Parkinson e Corpos de Lewy. Sobre idosos e cuidadores que vivem para além dos sintomas, que sobrevivem para além do diagnóstico.
Para representar no mundo ficcional as pessoas às quais dedico estes vinte e nove contos, tracei nestas páginas uma criança que se julga crescida diante do não reconhecimento da avó; uma cuidadora curiosa para descobrir a história de Lucília, a quem o idoso chama na penumbra azul das madrugadas; um senhor com receio de se constranger quando a menina que gesticula e fala demais o alcançar na calçada; um pai prestes a se deparar com a lembrança do quarto vazio; uma senhora que julga amanhecer com os olhos bons para montar um colar de contas coloridas; um irmão equilibrista que no circo da vida também sabe ser o palhaço, e tantos outros personagens que diante mim parecem reais.
Que eles possam existir para você também.