POEMAS

A poesia do outro

Não vejo graça em ler o que escrevo.

Gostoso é pousar os olhos nos escritos do outro.

Igual comida que a gente mesmo faz,

não tem sabor,

falta tempero.

O problema é que ler o outro

às vezes me dá gastura.

Quando a coisa é boa mesmo

dá uma sensação amarga de desejar ter escrito aquilo

e não poder mais.

Plágio é crime.

Outro dia, pedi ao meu amigo poeta

que escrevesse uma poesia minha

com a letra dele.

Em um papel branquinho,

com uma caligrafia rebuscada,

copiou os meus versos,

reproduziu minhas rimas.

Quando li,

deu aquela gastura,

a sensação amarga de não ter eu

aquela letra linda.

Metamorfose

Às vezes eu deleto

uma fração de mim mesma.

E me redesenho,

com novas linhas, outros traços.

Gosto de me rasurar, me desbotar, me colorir.

Por vezes, calco a caneta com força,

rasgo.

Tem horas que eu só rabisco,

por cima mesmo,

à lápis,

depois eu apago.

Abandono

Todos me abandonaram.

Levaram com eles o que conheciam de mim,

o que acreditavam que eu fosse,

o que imaginavam que eu deveria ser.

Não há mais ninguém aqui que eu conheça.

Nem eu mesma.

Parte de Mim

Pode revirar minhas gavetas,

analisar o que guardo,

espiar o que escondo.

Chafurde no meu lixo,

veja os restos do que me serviu,

cate tudo o que joguei fora.

Vele meu sono,

testemunhe meus sussurros,

ouça meus gemidos.

Persiga meus passos.

interrogue meus amigos.

À espreita,

vigie a minha solidão.

Ainda assim,

não me conhecerá

por inteiro.

Nem tudo de mim está na superfície.

Que me sirva

Procuro algo que me sirva
uma blusa,
calça,
vestido,
na medida justa, 
bem alinhado
igual peça de alfaiate.
Procuro alguém 
que me sirva também,
na medida exata,
igual coisa de cinema,
para toda a vida,
ou que ao menos me sirva
um bom café da manhã na cama,
em um domingo de preguiça,
me abra um pote de geleia
ou troque uma lâmpada queimada.

Transparente

O menino negro, 
negro como a noite.
Mas era dia.
Os pés descalços 
sobre o chão quadriculado,
preto e branco,
na mesma proporção.
Passantes,
em desigual proporção,
não o viam.
A noite,
negra como o menino,
chegou 
e o engoliu.
Se ao menos ele sorrisse.
Na manhã seguinte,
o corpo negro esticado 
sobre a areia,
negro como a noite,
mas era dia.
A areia, 
quente,
 quase alva,
a refletir o sol.
O passar das horas
a torná-lo frio,
a negritude 
a mantê-lo 
transparente.

Em Claro

Mais uma noite em claro,

apesar de toda escuridão,

no pequeno quarto

e dentro de mim.

Revivo lembranças

esmaecidas pelo tempo,

turvadas pelas lágrimas.

Um reviver sem vida,

um remorrer,

um remoer.

Remoo velhas memórias,

no sôfrego girar da manivela,

moendo e remoendo.

No giro silencioso do corpo frio

sobre a cama quente,

moendo e remoendo.

Alma Sufocada

Rasgaria o próprio peito

se seu sangue o alimentasse.

O leite, tão justo, conveniente, não vinha,

não tinha.

O choro a entrar pelos ouvidos

e a estrangular-lhe a alma.

Gritos estridentes,

de mãos fortes, firmes,

a esmagar seu coração,

a sufocar sua esperança,

sua espera seca, vazia.

Daria a própria vida,

se assim o salvasse.

Vidas que se dariam,

se perderiam,

sem que se desse nada em troca.

Desejo

Postou-se ao meu lado,

a respiração acelerada,

ansiosa.

Desejava que eu lhe notasse

a presença,

que eu erguesse a cabeça e

lhe encarasse os olhos,

lhe fitasse os lábios.

Mas retive minha atenção

aos seus sapatos,

que pouco a pouco se afastaram,

deixando para trás

a respiração acelerada, ansiosa,

que talvez fosse minha desde o início,

ignorando o desejo

que talvez fosse meu,

de que me notasse e

me encarasse os olhos,

me fitasse os lábios.

Querência

A querência chega a assustar-me.

Constante.

Querência de afeto,

de saber,

de ter.

Querência de ser,

sem saber o que se quer.

Um insistente querer de doce.

Com o doce ainda na boca,

quero outro.

Querência de adoçar também

a mente,

pinçar lembranças,

enganar a memória.

Querência de gritar o que penso,

de chorar o que sinto.

De estar sempre em outro lugar.

O chato querer de fazer sentido,

de ter sempre nexo.

Uma querência do próprio querer,

pra se querer sempre alguma coisa,

eternamente.

Ah, o amor

Procurei o amor

Como quem procura os óculos,

Com eles já na cara.

Encontrei, bem mais tarde,

Um outro amor,

Como quem descobre,

Entre o encosto e o assento,

Uma armação retorcida

E duas lentes quebradas.

O que o vento sopra

Lá fora, o vento levanta folhas do chão, em poucos centímetros, mas eu não o vejo. Ninguém vê o vento, apenas o que ele sopra, cortinas, saias, cabelos, papel, poeira, ele tem esse poder de jogar o foco nas outras coisas, que não ele.

Mas nem tudo o que ele sopra a gente vê, às vezes ele sopra lembranças no meu ouvido.

Ali, diante da janela, eu o reconheço

 na sopradinha de mamãe sobre meu dedo machucado, prometendo que o merthiolate não arderia, e eu franzia o rosto, aterrorizada, já não me lembro se ardia, mas lembro-me do ventinho que o sopro fazia.

Talvez o vento também sopre amor.

Vento

O vento chegou num alvoroço.

Ventania de embaralhar cabelos,

arribar saias, tremular bandeiras.

Com mais fúria, quebrou vidraças,

arremessou-me ao chão, encheu minha boca de poeira.

Ergui-me, olhos cerrados, braços abertos, deixei que ele me levasse.

Então, eu voei.

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