POEMAS

Metamorfose

Às vezes eu deleto

uma fração de mim mesma.

E me redesenho,

com novas linhas, outros traços.

Gosto de me rasurar, me desbotar, me colorir.

Por vezes, calco a caneta com força,

rasgo.

Tem horas que eu só rabisco,

por cima mesmo,

à lápis,

depois eu apago.

Abandono

Todos me abandonaram.

Levaram com eles o que conheciam de mim,

o que acreditavam que eu fosse,

o que imaginavam que eu deveria ser.

Não há mais ninguém aqui que eu conheça.

Nem eu mesma.

Parte de Mim

Pode revirar minhas gavetas,

analisar o que guardo,

espiar o que escondo.

Chafurde no meu lixo,

veja os restos do que me serviu,

cate tudo o que joguei fora.

Vele meu sono,

testemunhe meus sussurros,

ouça meus gemidos.

Persiga meus passos.

interrogue meus amigos.

À espreita,

vigie a minha solidão.

Ainda assim,

não me conhecerá

por inteiro.

Nem tudo de mim está na superfície.

Querência

A querência chega a assustar-me.

Constante.

Querência de afeto,

de saber,

de ter.

Querência de ser,

sem saber o que se quer.

Um insistente querer de doce.

Com o doce ainda na boca,

quero outro.

Querência de adoçar também

a mente,

pinçar lembranças,

enganar a memória.

Querência de gritar o que penso,

de chorar o que sinto.

De estar sempre em outro lugar.

O chato querer de fazer sentido,

de ter sempre nexo.

Uma querência do próprio querer,

pra se querer sempre alguma coisa,

eternamente.

Vingança

O medo recaiu sobre mim pela primeira vez antes mesmo de eu

ter me tornado gente.

Um pavor alheio a mim mesmo,

o medo de que eu não vingasse,

mas eu vinguei.

E aí vingaram também

os choros incessantes,

as constantes fraldas sujas,

os bicos dos seios esfolados

por uma boca insistentemente faminta. 

Como se, em um

sentimento alheio a mim mesmo,

eu me vingasse.

Um vingar e se vingar contínuo.

Um medo vingativo,

que nunca acaba.

Em Claro

Mais uma noite em claro,

apesar de toda escuridão,

no pequeno quarto

e dentro de mim.

Revivo lembranças

esmaecidas pelo tempo,

turvadas pelas lágrimas.

Um reviver sem vida,

um remorrer,

um remoer.

Remoo velhas memórias,

no sôfrego girar da manivela,

moendo e remoendo.

No giro silencioso do corpo frio

sobre a cama quente,

moendo e remoendo.

Alma Sufocada

Rasgaria o próprio peito

se seu sangue o alimentasse.

O leite, tão justo, conveniente, não vinha,

não tinha.

O choro a entrar pelos ouvidos

e a estrangular-lhe a alma.

Gritos estridentes,

de mãos fortes, firmes,

a esmagar seu coração,

a sufocar sua esperança,

sua espera seca, vazia.

Daria a própria vida,

se assim o salvasse.

Vidas que se dariam,

se perderiam,

sem que se desse nada em troca.

Desejo

Postou-se ao meu lado,

a respiração acelerada,

ansiosa.

Desejava que eu lhe notasse

a presença,

que eu erguesse a cabeça e

lhe encarasse os olhos,

lhe fitasse os lábios.

Mas retive minha atenção

aos seus sapatos,

que pouco a pouco se afastaram,

deixando para trás

a respiração acelerada, ansiosa,

que talvez fosse minha desde o início,

ignorando o desejo

que talvez fosse meu,

de que me notasse e

me encarasse os olhos,

me fitasse os lábios.

Ah, o amor

Procurei o amor

Como quem procura os óculos,

Com eles já na cara.

Encontrei, bem mais tarde,

Um outro amor,

Como quem descobre,

Entre o encosto e o assento,

Uma armação retorcida

E duas lentes quebradas.

Vento

O vento chegou num alvoroço.

Ventania

de embaralhar cabelos,

arribar saias,

tremular bandeiras.

Com mais fúria,

quebrou vidraças,

arremessou-me ao chão,

encheu minha boca de poeira.

Ergui-me,

olhos cerrados, braços abertos,

deixei que ele me levasse.

Então, eu voei.

Transparente

O menino negro,

negro como a noite.

Mas era dia.

Os pés descalços

sobre o chão quadriculado,

preto e branco,

na mesma proporção.

Passantes,

em desigual proporção,

não o viam.

A noite,

negra como o menino,

chegou

e o engoliu.

Se ao menos ele sorrisse.

Na manhã seguinte,

o corpo negro esticado

sobre a areia,

negro como a noite,

mas era dia.

A areia a refletir

o sol forte,

quase alva,

o menino

negro,

quente,

quase frio,

a negritude

a mantê-lo

transparente.

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