POEMAS

O Alvo

E ter reaberta, num só golpe,

a ferida recém-cicatrizada.

Desatar, um a um, os nós cegos,

da pele há pouco costurada.

Alinhar na antiga mira certeira,

a carne outrora dilacerada.

Recarregar o mesmo velho revólver, 

com a bala já disparada.

No Fundo

Mergulhei fundo

no abismo da minha alma

E foi como se a vida me engolisse

Por me saber

bem mais do que eu sabia

Me resgataste.

E eu retornei à superfície

Sou

Se hoje sinto profunda tristeza,

amanhã, jorro felicidade;

Ora me encontro na escuridão,

ora me escondo na claridade.

 

Sei contar várias mentiras

e também a mais pura verdade;

Sinto raiva, orgulho e inveja,

por vezes, esbanjo amor e humildade.

 

Faço coisas que não quero fazer,

e não abro mão das minhas vontades;

Posso agir feito anjo.

Mas, confesso, sei fazer maldades.

 

Tenho energia de criança arteira,

mas meu cansaço é de terceira idade;

Adoro fugir para longe,

Porém, sei morrer de saudades.

 

Ontem, hoje, amanhã,

não importa qual seja a idade;

A verdade é que sempre serei

a soma de duas metades.

Desassossego

Se o corpo já não é são,

Que eu tenha a pressão bem alta.

Que os tambores façam canção.

Os violinos não fazem falta.

 

Que me corroam de ansiedade,

Os que me habitam à espreita.

Que o corpo arda sem vaidade,

Na cama onde não mais se deita.

 

Se sinto na pele o chicote afiado

E, no rosto, o teu cuspe espesso.

Me julguem mal os puritanos,

Me crucifiquem os que nem conheço.

 

Se me ofereces indiferença,

Que me odeies plenamente.

Não tenho talento ao conformismo,

nem acredito mais na serpente.

 

Que jorre fogo da minha boca,

E que meu sexo tenha dentes.

Se me afogar, que seja agora,

E que a água esteja quente.

Calendário Desordenado

Ah, como seria bom,

se os dias, indisciplinadamente, 

abandonassem a cronologia 

e se embaralhassem livremente.

 

Dessa maneira se perderiam 

passado e presente, 

se intercalando, se confundindo, 

se reagrupando aleatoriamente.

 

Somente assim eu poderia 

me abandonar completamente 

à esperança infinita

de tê-lo ao meu lado novamente.

Insaciável

Viajar é tentar saciar,

por instantes,

uma sede insaciável. 

É um copo que se enche de ansiedade 

e se esvazia em goles de saudades. 

E eu anseio por sorver toda a água.

Que, de tanta, não cabe em mim.

E meu corpo transborda. 

E ainda assim eu sinto sede. 

Muita sede.

Saudades

Hoje eu sinto falta. 

Um vazio de mim mesmo. 

Saudades do que deixei pra trás. 

Daquele meu eu que hoje jaz. 

Daquela sorte,

que não me pertence mais.

 

Hoje eu sinto inveja. 

Uma inveja de mim mesmo. 

Daquela lembrança que se desfaz.

Do peito que batia e hoje jaz. 

Daquele sentimento,

que não me habita mais.

Parto

A incerteza do partir

parte meu ventre em dois.

Mas não parto,

renasço.

Tic Tac

Quanto dura o presente? 

Se o agora já passou? 

São milionésimos de segundo, 

O relógio já virou.

Tic Tac

Tic Tac

O que é já não é mais. 

Se o futuro já é presente, 

o agora ficou pra trás.

Poeta

Pensei em fazer poesia

Com o meu coração arredio.

Mas não encontrei coisa alguma,

no oco do peito vazio.

 

Hoje não sinto mais nada

sou poeta sem inspiração

A dor que sufocou minha alma

Levou o meu coração.

Em Claro

Mais uma noite em claro.

Apesar de toda escuridão.

No pequeno quarto e dentro de mim.

Revivo lembranças esmaecidas pelo tempo. Turvadas pelas lágrimas.

Um reviver sem vida. Um remorrer.

Um remoer.

Remoo velhas memórias,

No sôfrego girar da manivela.

Moendo e remoendo.

No giro silencioso do corpo frio

sobre a cama quente.

Uma reviravolta na mente.

Remexendo o passado.

Desenterrando gente.

Moendo e remoendo.

A Lua e Eu

Vesti minha roupa florida

Prendi o cabelo com fita

No corpo, colônia de rosas

Pra te ver, me fiz mais bonita.

 

Caminhei em direção à praia

Descalça, corri pela areia

Enfim, eu olhei para o alto

Tão linda, você estava cheia.

A Véia

Cê vai ficá? Se achega e senta.

Só que agora a véia num canta,

lamenta.

a dor nas cadeiras

as pobres lavadeiras

os telhados sem tabeiras

o fogo quente das lareiras

os trupicos nas ladeiras

as mocinhas parideiras

as comadres benzedeiras

o sol tapado com peneiras

todas as vidas alheias

Cê tá cum sono?

Num fica acabrunhada, que a véia agora canta inté de madrugada.

Sinceridade

Por quantos segundos você

suportaria minha sinceridade?

E se eu me despisse agora

de toda e qualquer falsidade?

O quanto eu poderia revelar

da minha mais pura verdade?

Estaria você preparado

para tanta honestidade?

 

Quantos decibéis de franqueza

seus ouvidos podem suportar?

Tanto faz se grito ou sussurro,

o que importa é o que vou te contar.

Façamos assim, se acalme,

não adianta se apavorar.

Espere, não saia correndo,

eu só quero conversar.

Nunca Só

Quando a tristeza invade o meu peito

E o meu mundo se enche de dor,

Um olhar de ternura me envolve

E o meu coração se abre pro amor.

 

Quando as lágrimas inundam minha alma

E a agonia embaralha meus sentidos,

Uma palavra de afeto me alcança

E inunda de alegria os meus ouvidos.

 

Quando a vida se mostra complicada

E a felicidade parece ilusão,

Um sorriso ilumina os meus olhos

E afasta toda escuridão.

 

Quando o medo me faz sentir pequeno

E a conquista parece tão distante,

Um abraço aquece o meu peito

E o amor me faz sentir gigante.

Quando fui Embora

Quando de casa eu sai, 

foi como se eu tivesse sumido. 

Hoje imagino que agiste

como se eu nunca tivesse existido.

 

A mala, que no outro dia

chegou cheia, saiu vazia. 

Não havia nada daquele lugar

que eu levaria.

 

Fotografias, escondidas numa gaveta,

em nenhuma delas eu me via.

Roupas, joias, sapatos,

nada mais me serviria. 

 

Consegui apagar minhas marcas,

meu rastro, minhas digitais.

Desapareci do teu mundo,

pra não voltar nunca mais.

Desejo

Postou-se ao meu lado,

a respiração acelerada, ansiosa.

Desejava que eu lhe notasse a presença,

que eu erguesse a cabeça e

lhe encarasse os olhos,

lhe fitasse os lábios.

Mas retive minha atenção aos seus sapatos,

que pouco a pouco se afastaram,

deixando para trás

a respiração acelerada, ansiosa,

que talvez fosse minha desde o início,

ignorando o desejo que talvez fosse meu,

de que me notasse e

me encarasse os olhos,

me fitasse os lábios.

Eu e eu Mesma

Meu maior medo é ficar presa

só eu e eu mesma na sala escura.

Eu me escondo, eu me calo

e já me vendo ainda me procura. 

Pé ante pé, sei que me espreita, sei que suspeita que já sou tua. 

Olhos nos olhos, te surpreendo

a devorar nossa carne crua. 

Ao Céu

Amarrei meus sonhos, um a um,

na mesma fita dourada.

Com cuidado, os deitei, lado a lado,

na cesta de palha trançada.

Sem coragem para desamarrá-los,

acendi a tocha encharcada.

Invadindo o céu, pouco a pouco,

sumiram na noite estrelada.

Cada Canto tem seu Encanto

Cada canto tem sua história,

seus perfumes, seu sabor. 

Cada canto tem seu encanto.

Cada canto tem suas luzes,

suas sombras, sua cor. 

Cada canto tem seu encanto.

Cada canto tem seu ritmo,

seus mistérios, seu esplendor.

Cada canto tem seu encanto.

Mas mesmo sendo doce o seu encanto

não posso me aprisionar.

Pois me aguardam outros encantos,

em outro canto, outro lugar.

Companheira

Queria lavar meu rancor, 

como se fosse sujeira.

 

Ver escorrer para o ralo 

o amargor de uma vida inteira.

 

Espanar o sofrimento da alma, 

como se espana poeira.

 

Saber que não mais será, 

a dor, minha companheira.

Brumadinho

A ambição que fez secar o rio

mandou mais de trezentos pruma vala.

A bruma que chora no leito vazio

convoca um grito que não se cala.

Sem Chance

É difícil aceitar que partiu
Dentro de mim algo se partiu também
Você se foi e levou embora aquela chance
A minha chance de ter feito tudo diferente
De ter libertado em mim um "eu" melhor
Aquele "eu" que conseguiria te fazer feliz
Agora não adianta mais. Já é tarde
Já se foram os espectadores 
Acabaram as expectativas
As cortinas se fecharam
Não há aplausos
Só o silêncio

.

O Outro

Olhar nos olhos do outro

sem julgar o que vê.

Doar-se deliberadamente

sem pensar em receber.

Abstrair-se de si mesmo

e poder encontrar no outro

um semelhante a você.

A Erva

Na minha cozinha tem a erva-doce

Vai bem em peixe, bolo e até salada

Mas o gostoso é ela em natura

Pra tomar quentinha já de madrugada

 

Tem uma tal de uma erva-mate

Que é perfeita pra chimarrear

Gaúcho gosta de erva pra beber

Mas tem que goste de erva pra fumar

 

Já vi muitos tipos de erva caseira

Tem até a que cura, que é a medicinal

Mas quando a erva cresce bem bonita

Ela vira uma erva ornamental

 

Conheço uma erva de nome cidreira

Mas não conheço aquela que pinica

Mas me disseram que a que dá barato

É aquela tal da erva da larica

Exato Momento

Repouso meu rosto em seu peito.

E é como se tivéssemos sido esculpidos cuidadosamente para chegarmos àquele encaixe perfeito.

Como se os ponteiros do relógio tivessem girado o dia inteiro, num tic-tac continuo e ordenado,

com o único propósito de chegarem

àquele exato momento. 

O ar que você inspira enche os meus pulmões. E eu já não sei mais qual coração estou ouvindo.

Vingança

O medo recaiu sobre mim pela primeira vez antes mesmo de eu

ter me tornado gente.

Um pavor alheio a mim mesmo.

O medo de que eu não vingasse.

Mas eu vinguei.

E aí vingaram também

os choros incessantes,

as constantes fraldas sujas,

os bicos dos seios esfolados

por uma boca insistentemente faminta. Como se, em um

sentimento alheio a mim mesmo,

eu me vingasse.

Um vingar e se vingar contínuo.

Um medo vingativo.

Que nunca acaba.

Esconde- Esconde

Espremida no armário estreito.

No peito, meu coração dança.

Fim da contagem regressiva.

Pelo corredor, meu algoz avança.

 

A excitação quase me sufoca.

Mesmo imóvel, meu corpo balança.

Então, silêncio, é a minha chance.

São poucos passos, mas ela me alcança.

 

Constrangida, triste e derrotada,

sinto na boca a sede por vingança.

10, 9, 8, eu recomeço o jogo,

A voz é firme, cheia de esperança.

 

Parto pro ataque com muita cautela

Meu corpo vibra autoconfiança

Ouço risinhos por detrás da porta.

Recobro logo a minha liderança.

Abandono

Todos me abandonaram.

Levaram com eles o que conheciam de mim,

o que acreditavam que eu fosse,

o que imaginavam que eu deveria ser.

Não há mais ninguém aqui que eu conheça.

Nem eu mesma.

Prisioneiro

Todos me julgam cavalheiro

Cobiçam meu dinheiro

Invejam meu grau de instrução.

 

Alardeiam minha sorte de herdeiro

Tratam-me igual a um estrangeiro

Tentam ganhar meu coração.

 

Ignoram meu destino traiçoeiro

Desconhecem que eu seja um prisioneiro,

vivendo só numa prisão.

Um ou outro

Fui eu que cheguei muito cedo ou

tá todo mundo atrasado?

A vizinha é só muito simpática ou

tá dando em cima do meu namorado?

Eu que vivo falando besteira ou

é você que anda muito estressado?

Eu que tô crescendo demais ou

já comprei o sapato apertado?

A pilha da chave acabou ou

tô tentando abrir o carro errado?

O meu micro tá com vírus ou

é o software que tá ultrapassado?

Vai comer antes porque já tá com fome

ou porque prefere bife malpassado?

Leu tudo porque não tem o que fazer ou

é o texto que tá muito arretado?

Janela Quebrada

A janela se quebrou,

e eu espiei lá fora.

Deixei que a folhas secas entrassem,

que rolassem pelo piso frio,

como se a casa estivesse vazia.

Entrou o vento, carregando pó e sujeira,

Deixei que entrassem dentro de mim

e invadissem meu corpo,

como se eu estivesse vazia.      

Arco-Íris

Já não cabem em mim as dores,

sofrimentos, não os aceito mais.

Hoje inundam em mim as cores,

é um arco-íris de colorir umbrais.

Vazio

Tentei preencher o vazio

que você deixou

com toda a minha tristeza,

com toda a minha raiva.

Com as minhas eternas saudades.

Mas ainda sobrou muito espaço.

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