É Pique é pique

Enquanto todos me esperavam, na sala, com um bolo de Nescau açucarado e uma daquelas velas guardadas para as noites de chuvas e trovoadas, eu me encarava no espelho, tentando contar as rugas que havia ganhado naquele último ano.

Ainda na terceira ruga, ouvi gritos impacientes, quase em coro. "Vem logo". Oras, para que a pressa? Havia aguardado ansiosamente durante um ano inteiro por aquele momento, que diferença fariam alguns minutinhos?

Impacientes, gritaram novamente lá da sala, avisando, quase ameaçando, que a vela já estava acesa. Puxa vida, aquilo era pior do que velório de corpo presente. Corpo, alma e rugas ainda ausentes, começaram a entoar o hino do constrangimento. "Parabéns pra você..." . Era a minha deixa.

Entrei na sala constrangido, com meu pijama listrado. Todos os convidados (todos os quatro) também vestiam seus trajes finos (ou grossos) de dormir.

Ao final da música, ninguém aplaudiu. E quase tão rápido quanto o apagar da velinha já quase apagada, todos se levantaram rapidamente, desfazendo em segundos aquele quebra-cabeças humano milimetricamente encaixado no sofá puído. Passaram os quatro quase juntos pela porta estreita. Nem sei de onde tiraram aquele último suspiro de energia.

Fiquei sozinho na sala, imaginando que no ano seguinte poderíamos acender uma daquelas velas de sete dias, que ficaria num canto se consumindo em silêncio e se apagaria sozinha uma semana depois. O bolo já nem seria mais necessário, já que ninguém comeu. Abriríamos mão da musiquinha constrangedora também.

Quando cheguei no quarto, ela já estava deitada. Mas, antes de virar para o outro lado, me desejou pela primeira vez um Feliz Aniversário. E eu preferi crer que ela fosse sonâmbula. Nem ousei agradecer.

No dia seguinte, disputando espaço com a margarina e o pão francês, lá estava ele: o açucarado de Nescau. Intocado. Enquanto sorvia meu café, minha filha mais velha entrou na cozinha e, ao se deparar com o imaculado, questionou quase em êxtase. "Oba, bolo de chocolate. Alguma comemoração?".

Tentei refazer a cena da fatídica noite anterior na minha cabeça e confirmei que ela era uma das peças do quebra-cabeças humano, uma das convidadas VIP, bem trajada com seu flanelado florido.

Me levantei da mesa, peguei meu caderninho de anotações, fui para o banheiro e me encarei no espelho. Tive a certeza de que havia acabado de ganhar mais uma ruga. A primeira do novo ano. Comecei bem. 

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