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Iceberg

O livro de microcontos Iceberg acaba de ser lançado pela

Venas Abiertas,

na Coleção III do Mullherio das Letras

TEXTO EM DESTAQUE

No café da manhã

— Abre a boca, Ricardinho. Abre. Aaaaaaaa. Assim ó, aaaaaaa. 
Diante da boca cerrada, que desviava com agilidade do aviãozinho imaginário, ela jogou a colher na mesa e papinha pastosa no próprio cabelo. Rangeu os pés da cadeira no chão, em uma tentativa afobada de se levantar sem afastar-se da mesa o suficiente.
— Volta aqui, Dorotéia, onde você vai?
— Vou sumir, quero sumir... —Bateu as junções dos dedos na parede, cada sílaba um soco. — Que ro su mir quan do es se me ni no não co me.
— Vai machucar a mão, senta aqui. Ele vai comer.
— Não vai comer, Roberto. 
— Vai. Ele vai.
— Não vai. É todo dia a mesma coisa. A mesmíssima coisa. Todo santo dia.
— Tá bom, Dorotéia. — Bateu a palma da mão em cima da mesa, deslocando em milímetros o pote de geleia. — Ele não vai comer. Não vai comer messssmo. 
Dorotéia, que limpava o cabelo de papinha com o pano de prato, parou e ficou olhando para o marido que finalmente concordava com ela, apesar de seu tom ser de inegável discordância.
— Sabe por que ele não vai comer? — Mais um tapão na mesa e o pratinho de porcelana balançou. Dorotéia também.

 

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