No café da manhã

— Abre a boca, Ricardinho. Abre. Aaaaaaaa. Assim ó, aaaaaaa. 
Diante da boca cerrada, que desviava com agilidade do aviãozinho imaginário, ela jogou a colher na mesa e papinha pastosa no próprio cabelo. Rangeu os pés da cadeira no chão, em uma tentativa afobada de se levantar sem afastar-se da mesa o suficiente.
— Volta aqui, Dorotéia, onde você vai?
— Vou sumir, quero sumir... —Bateu as junções dos dedos na parede, cada sílaba um soco. — Que ro su mir quan do es se me ni no não co me.
— Vai machucar a mão, senta aqui. Ele vai comer.
— Não vai comer, Roberto. 
— Vai. Ele vai.
— Não vai. É todo dia a mesma coisa. A mesmíssima coisa. Todo santo dia.
— Tá bom, Dorotéia. — Bateu a palma da mão em cima da mesa, deslocando em milímetros o pote de geleia. — Ele não vai comer. Não vai comer messssmo. 
Dorotéia, que limpava o cabelo de papinha com o pano de prato, parou e ficou olhando para o marido que finalmente concordava com ela, apesar de seu tom ser de inegável discordância.
— Sabe por que ele não vai comer? — Mais um tapão na mesa e o pratinho de porcelana balançou. Dorotéia também.
Roberto levantou-se e deu alguns passos em direção à cadeirinha de alimentação. O rosto contorcido. Aproximou-se da criança e colocou a mão pesada sobre sua cabeça de cachinhos dourados. — Não vai comer, Dorotéia. O Ricardinho não vai comer. Nem hoje. — A voz ganhando volume. Entrelaçou os dedos nos cabelos do menino. — Nem nunca! Ergueu-o pela cabeça, tirando-o da cadeirinha com inesperada facilidade. E arremessou-o ao chão.
Dorotéia acompanhava os movimentos do marido, mas seu corpo era incapaz de qualquer ação. As únicas coisas que se moviam eram os olhos, frenéticos, arregalados, quase deixando sua cabeça. 
— Sabe por que, mamãezinha querida? — Gritou, olhando para a esposa. — Porque ele é um boneco. Um bo ne co. Bo ne co.
Quando recobrou os movimentos, Dorotéia partiu para cima de Roberto, que àquela altura sapateava sobre a cabeça de Ricardinho. Com toda a energia acumulada durante a inércia involuntária, ela agarrou o braço do marido e cravou-lhe os dentes. A força foi tanta que ela saiu com um tufo de algodão e tecido na boca. A reação dele foi imediata. Encaixou os dedos da mão direita no olho esquerdo da esposa e puxou, quebrando, em um só golpe, toda a costura que prendia o botão azul celeste à sua cabeça almofadada. Não satisfeito, arrancou o outro. 

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