Sem Alistamento

Desde o início eu determinei uma distância segura para acompanhar a aptidão do meu marido para a marcenaria. Sabe aquele lugarzinho perfeito, entre o muito longe e o perto demais? Então, foi lá que eu coloquei minha poltrona.

Armado com lixas, madeiras, serras e verniz, lá estava ele, com a determinação de combatente, cheio de energia. A exatamente 370 cm, estava eu, de pijama e pantufas, cheia de preguiça.

Até que um dia ele resolveu reduzir bastante aquela distância. E me chamou para o campo de batalha, mesmo sem um prévio alistamento. Troquei o pijama pela roupa velha e entrei no campo minado.

Feito general, ele foi logo dividindo as tarefas: "eu fico com a lixa e você com o verniz". Na hora não entendi se ele achava que eu lixava mal ou que eu pintava bem. Nem ousei perguntar porque eu também não sabia a resposta. Disse apenas, sim, senhor!

Duas horas e meia depois, envernizada até por debaixo da roupa, eu estava exausta, mas orgulhosa. Tarefa dada era tarefa cumprida.

No dia seguinte, hesitei em aparecer para o combate, mas ele me convocou. E daquela vez me deu a lixadeira. Então, surgiu a dúvida: será que pintei mal ou dei pinta de que lixo bem? Acabei com poeira até por dentro.

Após dois dias no pelotão de frente, ele olhou para mim e anunciou: amanhã você pinta e lixa para eu avaliar melhor o seu desempenho. Feito soldado raso que no calor da batalha atravessa o fogo cruzado gritando e balançando os braços, eu aceitei a missão, orgulhosa.

No dia seguinte, prendi meu cabelo, vesti minha roupa de guerra e me armei com lixas e pincéis. Ele, a exatos 370 cm de distância, de pijama e pantufas, se sentou na minha poltrona e fez sinal para eu começar.

Larguei as armas e o encarei, furiosa. Faltou pouco, mas muito pouco para eu destravar a granada.

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