O Vizinho

Ontem, fui conhecer meu vizinho de andar. Bati na porta. Alguns segundos depois, ele apareceu. Vestia pijama e pantufas.

— Oi, sou seu vizinho — eu disse, apontando para a porta atrás de mim.

Ele ficou em silêncio. Eu fiz o mesmo.

Quando o silêncio se tornou constrangedor, ele me convidou para entrar.

Estendi em sua direção um pacote de biscoitos caseiros que minha esposa havia me obrigado a levar. E fui entrando.

— Nossa, quanta...arte — eu disse, ao me deparar com uma quantidade exagerada de objetos artísticos, por assim dizer, espalhados pela sala.

— Eu mesmo que faço — disse, exibindo um sorriso orgulhoso.

— Ah, é escultor?

— Não — respondeu, mantendo o sorriso. — É só por diversão.

— Hum.

— Obrigado pelos biscoitos. Você que faz?

— Os biscoitos? Não, minha esposa.

— Só por diversão?

— O quê?

­— Os biscoitos.

— Ah. Sim. Por diversão — disse, tentando não rir.

Então, tocou um celular. O dele. Ele colocou os biscoitos caseiros sobre a mesa e tirou o aparelho do bolso do pijama.

— Preciso atender, fique à vontade — disse, saindo corredor afora.

Eu me sentei. Bem ao lado da poltrona, sobre uma mesinha, algumas artes e, dentre elas, uma que parecia um cinzeiro. Me senti à vontade. Acendi um cigarro. Mas nem bem dei a primeira tragada e ele voltou.

— O senhor fuma? — perguntou, indignado, enquanto abanava as mãos no ar, como se o ambiente já estivesse impregnado de fumaça.

— Fumo. (Só por diversão, pensei).

Escancarou a janela atrás de mim e se dirigiu para o corredor, entrando, desta vez, no que imaginei ser a cozinha. Aguardei que retornasse com uma cerveja e algo para beliscar. Mas ele voltou segurando um copo. Vazio.

— Para as cinzas — disse, apontando para meu cigarro, enquanto retirava da mesinha a espécie de cinzeiro com as cinzas recém-depositadas.

Tocou um celular. O dele de novo.

— Também preciso atender essa — disse, saindo novamente da sala.

Da janela aberta pude ouvi-lo.

O vizinho tá aqui. Sim, o da outra porta.

Senti minha audição ficar incrivelmente mais aguçada.

Um sem educação. Tá fumando lá na sala

Olhei para uma das esculturas que parecia um sapato feminino de bico fino. Dei uma boa tragada e bati o cigarro lá dentro, fazendo as cinzas rolarem até a pontinha. O recoloquei no lugar e me sentei novamente.

Não fiz por mal. (Foi só por diversão, pensei comigo mesmo).

Quando ele voltou, eu já estava de pé no meio da sala.

— Já vai?

— Sim, só vim dar as boas vindas.

Antes tarde do que nunca, ele estendeu a mão para mim.

— Carlos.

Fiquei olhando para a mão estendida.

— Meu nome é Carlos — disse, se explicando.

— Ah, prazer, Carlos. Renato.

Quando me virei para a porta da saída, ele falou, meio sem graça, talvez suspeitando que eu tivesse ouvido a conversa ou só para parecer mais educado do que eu:

— A gente pode marcar alguma coisa depois. Fora daqui.

— Sim. Com certeza — respondi sem muita convicção.

Já abrindo a porta do meu apartamento, eu não resisti. Me virei pra trás e disse:

— A gente marca sim. Nem que seja só por diversão.

Dei um aceno e fechei a porta antes que ele marcasse a data do nosso divertimento.

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