O sabor das balas

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Enquanto tentava alcançar a bolsa no banco de trás, ouvi três batidinhas no vidro.
─ Tem um dinheiro aí, tia?
Agarrei a bolsa e me virei assustada.
─ Assustei, tia? Desculpa aí. 
Ele deu uma risadinha, eu, não. Saí do carro sem olhar para ele, advertindo que não haveria, de minha parte, muita generosidade.
─ Pode olhar, mas eu volto logo.
─ Quero olhar nada não, senhora. Quero só saber se a senhora pode colaborar aí.
─ Agora sou senhora? E a tia?
A resposta chegou mais lenta, e não foi a que eu esperava.
─ Morreu. Mataram ela.
Confundido pela minha pergunta sem sentido, o menino revelou naquele instante inoportuno a perda da tia, que não era eu. Sem saber o que dizer, resolvi dar o dinheiro. Abri a carteira e estendi a ele uma nota de dez reais, que não comprou seu silêncio nem acabou com meu mal-estar.
─ Foi semana passada.
Pensei em abrir a carteira e pegar outra nota, talvez de mais alto valor, e aquele pensamento constrangeu-me mais do que a incapacidade de consolar aquela criança. Antes que eu me tornasse capaz de qualquer coisa, ele agradeceu e saiu, deixando comigo toda a minha incompetência, a minha falta de jeito e a minha grosseria.
No dia seguinte, fiz questão de ir até aquela rua, sem outro motivo além da necessidade de falar de novo com aquele menino. Parei na mesma vaga, e ele apareceu assim que desliguei o carro.
─ Voltou, tia?
E a palavra “tia” pesou mais do que no dia anterior. Antes que eu dissesse qualquer coisa, lançou seu pedido.
─ Tem dinheiro hoje, tia?
Deixei o carro, já com a carteira na mão.
─ Pra que você quer o dinheiro? Está com fome? 
─ Tô não. É pra comprar bala.
─ Bala? 
Fez sinal que sim com a cabeça, e eu achei até graça de sua sinceridade e inocência. E de certo exagero. 
─ Onde você mora?
─ Ali no Salgueiro.
─ E sua mãe? Onde ela está?
─ Tá na casa da patroa.
Pensei em falar sobre escola, sobre a importância dos estudos, perguntar se sabia ler, escrever, falar sobre o perigo das ruas, perguntar do seu pai, se tinha irmãos, mas acabei falando sobre morte.
─ Sua tia morreu mesmo?
Sua cabecinha pendeu para frente e para trás, mais vezes do que o necessário, como se quisesse reforçar a afirmativa daquela resposta. 
Eu, em silêncio.
─ Espancada.
E aquela palavra, dita lentamente, cada sílaba enfatizada, pareceu tão estranha na boca daquela criança tão pequena, tão mirrada, que passei a mão pelo seu rosto, como se tentasse apagar aquela tragédia de sua memória. Ele olhou nos meus olhos e, justamente naquele instante em que eu estava pronta para ser a tia que ele não tinha mais, voltou a me chamar de senhora e a refazer sua súplica.
─ A senhora tem algum pra dar hoje?
Tirei a mão de seu rosto, abri a carteira e dobrei a doação do dia anterior. 
─ Toma. Compre suas balas, meu bem. 
E ele sorriu, talvez pelo dinheiro, talvez pelo “meu bem”, talvez pelos dois, e, antes que se afastasse demais, perguntei seu nome, e ele respondeu “Felipe, mas a senhora pode me chamar de Lipinho”. Apesar do “senhora”, senti que nascia entre nós uma intimidade de tia e sobrinho. 
Voltei para o carro e dirigi para casa imaginando quantas balas ele conseguiria comprar com os trinta reais e com sei lá mais quantos reais ele haveria conseguido angariar assustando as pessoas em seus carros recém-estacionados. As balas seriam seu alento, e eu supus que preferiria as de chocolate.
A rotina me engolindo, os problemas me afogando, e eu não pensei no Lipinho pelos três dias seguintes, até que o noticiário regional me trouxe a sua lembrança. 
Deixei o café sobre a mesa, assim que li, em letras graúdas, na parte inferior da tela, a manchete: “Morador do Salgueiro é assassinado”. 
A repórter, em tom meio de desgraça meio de alívio, relatava o assassinato de Lucinho Axé, morador do morro do Salgueiro, suspeito de matar sua companheira, por espancamento, onze dias antes. O homem havia sido morto a balas. Cinco.