O Irmão da Maria Theresa

Quando eu nasci, ninguém sabia meu nome. Eu era o irmão da Maria Theresa. E isso era informação que bastava. Só depois, bem depois, foi que eu me tornei o Nelsinho.

Na época do meu nascimento, 25 anos atrás, minha irmã já era a Maria Theresa, com agá, famosa lá pras bandas do Mato Grosso. Eu, quando deu, saí de lá. Vim pra São Paulo. Se era pra ser um ninguém, que fosse na cidade grande. Não demorou muito, eu arrumei um emprego nos Correios, e foi então que eu ganhei até apelido. Hoje eu sou o Nelsinho Carteiro. E muita gente sabe meu nome.

Bom, vamos voltar à Maria Theresa. Essa sim nasceu pra ser alguém. Nasceu com um dom. E essas coisas de dom a gente tem que respeitar.

Quando tinha 10 anos, ela sonhou com a cabeça da vizinha na janela da nossa casa. Uma cabeça sem corpo, decepada, sangrenta, olhos arregalados, cabelo desgrenhado. No dia seguinte, assim que ela contou, aos prantos, o sonho terrível pra minha mãe, espalhou-se pelas redondezas a triste e aterradora notícia de que a tal vizinha, a mesma do pesadelo, tinha sido encontrada morta. Cabeça no quintal, corpo na cozinha. Foi um rebuliço.

Quando minha mãe contou para toda a vizinhança sobre a premonição da Teresinha, o rebuliço foi ainda maior. No final das contas, o pesadelo da criança rendeu mais assunto do que a morte da vizinha. Mesmo sendo uma morte assim estranha, sem explicação, sem motivo, sem suspeito, com corpo e um lado e cabeça do outro. Até eu sair de lá, uns dez anos atrás, ainda não tinham encontrado o assassino e ninguém mais se lembrava qual era o nome da vizinha, que passou a ser tratada como vizinha da Maria Theresa. Mas posso te garantir que todos sabiam de cor o pesadelo da Teresinha.

Logo, minha irmã virou gente importante na cidade. As pessoas apareciam lá em casa para saber se ela tinha sonhado com alguma coisa estranha. Muitas colocavam as mãos sobre sua cabeça e rezavam um pai nosso. Quem tinha gente doente em casa, aparecia pedindo que a menina fosse colocar as mãos nas feridas alheias. Sempre que minha mãe me contava essa parte, eu sentia pena da Teresinha. Foi aí que eu aprendi que nem sempre é fácil ser celebridade.

Um dia, a prima da minha mãe, tia Nonô, foi em casa pra buscar minha irmã. O marido tava doente da perna. Ela queria saber se a criança prodígio podia ir lá pôr a mão na chaga aberta. Assim que ouviu o pedido da tia Nonô, Teresinha desatou a chorar. Chorou por quatro dias seguidos. No quinto dia, a perna do homem sarou. Foi depois disso que Maria Teresa virou Maria Theresa. E sua fama se espalhou pras cidades vizinhas.

Isso tudo eu sei porque minha mãe contou pra mim várias vezes. Eu mesmo só entrei pra essa história dois anos depois do tal pesadelo da cabeça na janela, quando a fama da Maria Theresa, já com agá, tinha se espalhado pelo Mato Grosso todo.

Entre o nascimento da primogênita especial e o meu, veio o Micael. Nasceu feio, mirrado, doente. Mas nasceu na hora certa, quando a Teresinha tinha apenas 2 anos e seu dom ainda não tinha aflorado. Então, ele nasceu com nome.

Meu pai dizia que ele não seria nada na vida. E tudo indicava que ele tinha razão. Até o dia em que a fama da Maria Theresa se consolidou e ela começou a atender em casa, com hora marcada. Foi ai que meu irmão viu a oportunidade de mostrar seu valor. Sem que ninguém o elegesse para tal tarefa, Micael começou a assessorar nossa irmã, marcando os horários na agenda, organizando a fila de espera e distribuindo senhas nos dias de evento aberto. Hoje ele é o assistente dela. Agora, oficial, com salário e tudo.

Pelo que minha mãe falou, parece que o Micael, hoje Michael, ganhou um agá também pra ficar igual ao Jackson, desenvolveu até um certo dom ele mesmo. Minha mãe acha que foi a convivência. Sei lá se isso é contagioso. Prefiro não dar palpite.

A verdade é que o tempo foi passando e a Maria Theresa foi aumentando sua fama. Eu fui acompanhando isso tudo pelas cartas que minha mãe me mandava e ainda me manda de vez em quando. Eu tenho até celular com Whatsapp e tudo mas ela prefere mandar carta. Deve achar que chega mais rápido só porque eu sou do ramo do Correio. Eu até prefiro assim.

Hoje, a Maria Theresa realiza palestras no país inteiro e até já foi convidada pra falar no exterior. Escreveu três livros de sucesso. Tem página no YouTube com mais de um milhão de seguidores e foi até no Jô. Eu nem conto que ela é minha irmã. Não que eu não tenha orgulho dela ou tenha inveja do seu dom. É porque eu quero preservar meu nome. Nelsinho Carteiro. É assim que eu quero que me conheçam. Nome da gente é coisa que se respeita.

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