Nosso lugar no mundo

Na segunda-feira, a jornalista do impresso local veio até a nossa casa para falar com a minha mãe. Era a segunda vez que ela a entrevistava. Na primeira, mais de três anos e meio atrás, minha mãe, dona Maria do Carmo Brandão, a dona Carminha, moradora do subúrbio carioca, estava se sentindo importante. Era a sua chance de desabafar, de ser ouvida, de exigir seus direitos. Foi em janeiro de 2015, quando o museu onde ela trabalhava fechou as portas por 11 dias por falta de verba para o pagamento dos funcionários da segurança e da limpeza. Dona Carminha fazia parte desta segunda equipe.

Quando a jornalista Celeste Lemos pegou o seu bloquinho de anotações e sua caneta, dona Carminha desatou a falar. Justificou as portas fechadas do Museu Nacional do Rio de Janeiro com a voz firme.

— É um descaso com os trabalhadores e um descaso com o museu também — repetia ela, olhando para as folhas pautadas, como se quisesse garantir que a repórter escreveria cada uma de suas palavras. No dia seguinte, uma foto da minha mãe saiu no jornal, além do seu nome e uma pequena parte de tudo o que ela falou naquele dia. 

Na segunda-feira passada, a jornalista Celeste veio falar com a velha de novo. Mas quando cheguei no quarto para avisá-la, percebi que aquela segunda entrevista não seria a mesma coisa. Minha mãe estava com os olhos inchados de tanto chorar. Não vestiu o uniforme, não tinha passado o batom vermelho da outra vez. Estava claro que ela não sentia mais orgulho. Não queria mais ser ouvida. Não queria mais ver seu nome no jornal. Mas ela sentia que devia aquilo à jornalista. Então, ela tomou coragem para se levantar da cama.

Minha mãe trabalhou no Museu Nacional do Rio de Janeiro por quase quatro anos antes do incêndio, contratada por uma empresa terceirizada. Mas ela começou com o pé esquerdo, bem quando os salários começaram a atrasar graças à falta de repasse de verba do MEC para a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Nos primeiros meses, ela dizia que não se sentia bem trabalhando lá. Além dos atrasos nos pagamentos, que faziam muita falta para nós, o descaso com o tesouro que aquele palácio guardava a incomodava. Mas foi logo após aquela primeira entrevista, quando ela se colocou lado a lado com o museu na condição de menosprezados, que dona Carminha se sentiu íntima daquele lugar. Então, ela se apaixonou pelo Museu Nacional.

Se antes ela inventava desculpas para não me acompanhar ao museu, nos meses que se seguiram à reabertura ela passou a fazer questão de uma visita, mesmo que rápida, em quase todos os seus dias de folga. Aquela rotina fez com que ela pisasse ali quase diariamente até setembro de 2018, quando aconteceu a tragédia. Mais do que nossa casa, o Museu Nacional se tornou nosso lugar no Rio de Janeiro. O nosso lugar no mundo.

E quando não estava lá em pessoa, realizando seu trabalho com esmero ou, nos dias de visita, apreciando os artefatos antigos e todo o rico acervo exposto, dona Carminha trazia o museu para dentro de nossa casa. Durante o jantar, ela contava sobre seu dia de trabalho e sobre suas descobertas — na maioria das vezes falava mesmo sobre as coisas que todos nós já sabíamos de cor. Mas eu e meu pai a ouvíamos com toda a atenção que ela e o assunto mereciam.

Eu gostava de tudo no museu, de todas as suas relíquias, de toda a sua História. Mas o que mais me encantava, e ainda encanta, é o impressionante meteorito de Bendegó, um dos maiores do mundo, com mais de cinco toneladas. Foi graças a ele que eu ingressei no curso universitário de Geologia, há dois anos. Quando eu ainda estava para prestar o vestibular, minha mãe solicitou a sua transferência para a seção de Meteorística. Ela dizia que queria estar preparada para me ajudar com os estudos.

Na segunda-feira, quando minha mãe apareceu na sala de casa, Celeste Lemos já estava com o bloquinho e a caneta nas mãos, aguardando por alguém que ela havia conhecido fazia quase quatro anos. Mas eu acho que ela nem reconheceu a dona Carminha de outrora.

Naquela segunda entrevista, minha mãe mais chorou do que falou. Sobrou pouca coisa para a Celeste colocar na matéria. Talvez por isso eles tenham caprichado no tamanho da foto de dona Maria do Carmo Brandão. Com olhos inchados, sem uniforme, sem batom. Na legenda, uma frase entre aspas: “Não me deixaram entrar lá. Eu precisava entrar. Eu só queria ajudar a limpar.”

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