Engolido pela Escuridão

No dia em que Luan nasceu, o céu estava nublado. As nuvens encobriam o sol, mas não eram nuvens de chuva. Era um dia ameno de outono. Não fazia frio tampouco calor.

Ele veio ao mundo no início da tarde, nem grande nem pequeno, nem bonito nem feio. E foi crescendo assim. Nunca mais. Nunca menos. Sempre mais ou menos, ocupando aquela faixa neutra da sociedade, o ponto cego que engole os invisíveis e os inclassificáveis.

Luan permaneceu toda a sua infância camuflado no meio da multidão. Porém, quando completou 15 anos, uma necessidade urgente de deixar a invisibilidade tomou conta de sua mente e modificou o seu corpo.

Tatuagens coloriram os seus braços, avançando até o pescoço. Piercings penetraram sobrancelhas, língua e orelhas. O preto dominou seu vestuário. Então, Luan ganhou apelido, ganhou confiança, ganhou malandragem e uma turma completa de revoltados iguais a ele.

Drogas e bebidas, além de muitas inimizades, foram conquistadas nas ruas, nos bares e nos becos. E era nos becos mais imundos, nos dias de maior torpor, que ele se encontrava consigo mesmo. Um inimigo ainda pior do que os outros. E foi durante um destes encontros inebriantes que Luan sentiu remorso. Perdido em sua própria escuridão, sentiu-se mais invisível do que antes.

Então, segurando nas mãos trêmulas uma lâmina afiada, vislumbrou a liberdade para ambos. Abriu o ventre do umbigo até o peito. Morreram os dois, simultaneamente.

Era um fim de tarde de verão, com calor extremo. No céu, disputavam espaço sol, nuvens carregadas, raios e trovões. Talvez fosse um bom dia para renascer.

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