Em Nome da Ciência

Eu sempre fui a favor dos experimentos práticos. E foi graças a esse meu quê de cientista que eu resolvi testar nosso amor cientificamente.

Fiz do lavabo um laboratório. Uma espécie de "lavaboratório". Ela me olhou desconfiada, fez algumas perguntas e me seguiu durante os primeiros cinco minutos, certamente com receio de que eu quebrasse alguma coisa. Eu disse apenas que estava fazendo um experimento e que arrumaria tudo quando terminasse. Ela aceitou, ainda desconfiada.

Fui até a cozinha, peguei uma peneira, daquelas de lavar arroz, coloquei luvas de borracha, avental branco até o joelho, fechei a porta do lavabo e desliguei o celular para que nada me atrapalhasse. Então, peguei nosso amor com todo o cuidado e o coloquei na peneira. Eu precisava saber o que de sólido havia naquela relação.

Imediatamente, um líquido espesso começou a escoar, passando livremente pelos orifícios do utensílio de plástico. E escoou por dez dias. Dez intermináveis dias. Interditei o lavabo e fiquei observando.

Não demorou muito para que ela suspeitasse de que algo havia dado errado. Eu também não tinha imaginado que demoraria tanto. Quase interferi nos resultados finais ao cogitar vasculhar a peneira ou dar algumas batidinhas repetidas na pia para tentar acelerar o escoamento. Mas meu lado cientista me impediu. Eu precisava ter paciência para saber se nosso amor tinha algo de consistente.

No terceiro dia ela exigiu seu lavabo de volta, embora o usássemos com uma frequência quase anual. Com jeitinho, pedi que confiasse no meu experimento e disse que deixaria a porta entreaberta para que ela pudesse espiar. Mas mantive os detalhes sobre o experimento em sigilo. Ela até apareceu no começo, colocando apenas a cabeça para dentro do pequeno banheiro, franzindo as sobrancelhas e fazendo as mesmas perguntas sem resposta. Logo desistiu.

Mas eu não desisti. Continuei observando, dia após dia, num misto de curiosidade, ansiedade e aflição. Ela já nem me perguntava mais sobre minhas incursões diárias ao “lavaboratório”, não espiava mais pela porta entreaberta e estava cada vez mais distante. Ah, as mulheres.

No décimo dia, a última gota gosmenta escorreu, e eu pude ver o fundo da peneira. Não havia restado nada. Nem um grãozinho para uma análise mais aprofundada. Constatei que havia despejado tudo pelo ralo.

Deixei o lavabo, pensativo. Procurei por ela pela casa toda, mas ela não estava mais lá. E não voltou mais.

Angustiado, redigi um artigo e enviei para vários sites e revistas científicos. Precisava publicar os resultados obtidos com minha pesquisa inédita.

Apesar de não ter chegado a uma conclusão precisa e definitiva, elaborei duas hipóteses. A ciência tem dessas coisas mesmo, tudo são teorias e hipóteses. E eu formulei as minhas.

A primeira era difícil de aceitar e até um pouco constrangedora. Declarava que o objeto de estudo não possuía componentes sólidos. Confesso que, apesar de relutante em admitir tal teoria, o sumiço dela me parecia uma prova bastante contundente. A outra hipótese, mais aceitável, era a de que o amor possui uma consistência leitosa.

Ao final do artigo, coloquei uma observação em negrito: “sugiro que nas próximas análises um recipiente seja colocado embaixo da peneira durante o escoamento". 

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