Dona Chica Admirada

Ontem eu tomei coragem e resolvi ir conversar com a dona Chica, perguntar umas coisas que estavam na minha cabeça já fazia uns sete anos. Cheguei lá na casa dela, uma casinha simples, a mesma de sempre, e encontrei a velha, mais velha ainda, sentada na mesma cadeira de palha. Então, fui entrando e cumprimentando. Ela me olhou, desconfiada, e chacoalhou a cabeça como se me perguntasse quem era eu. Não expliquei, fui logo perguntando:

— Cadê o gato, dona Chica?

— Gato, de que gato que o moço tá falando?

— Aquele que ficava aqui pela rua. A senhora não se lembra?

Ela ficou me encarando. Percebi que ela buscava lá dentro da cachola enferrujada dela alguma lembrança da qual ela já não se lembrava mais. Olhou pra mim e fez que não com a cabeça. Ai eu tentei refrescar a memória da velha:

— Aquele que berrou — falei, meio sem graça. — A senhora não se lembra? Na época a senhora ficou bem admirada. Como pode ter se esquecido?

Ela arregalou os olhos e se ajeitou na cadeira. Percebi na hora que a memória da dona Chica tinha pego no tranco. Ela confirmou, fazendo que sim com a cabeça. Então, eu continuei, ainda com receio de confessar a parte que me cabia, a da paulada.

— Dona Chica, faz anos que eu quero lhe perguntar, mas só hoje tomei coragem — falei, meio acanhado.

— Diga meu fio.

— Porque a senhora admirou-se com o berro que o gato deu, mas não com a paulada que eu tinha dado nele?

O pequeno cômodo ficou em silêncio. A velha ficou olhando para mim.

— Ocê num é aquele ‘minino’ gaguinho que morava nessas banda? — perguntou apontando o dedo para mim, com a testa franzida.

Enrubesci na hora e quase que a gagueira voltou. Então, eu me mantive no meu propósito da noite e acho que acabei pegando pesado com a velhinha:

— Aquela atitude da senhora, na ocasião, visto que eu me encontrava na tenra idade, talvez tenha afetado o meu discernimento sobre o que é certo e errado — falei, duvidando que ela estivesse compreendendo a parte do discernimento.

Então, a dona Chica se levantou da cadeira num pulo, e eu me afastei num reflexo. Enquanto caminhava até mim, com certa dificuldade, ela olhava para os lados, o que me fez temer que ela estivesse procurando um pau para atirar em mim. Mas ela chegou bem perto, coçou a cabeça, apertou os olhos e, enfim, falou:

— Paulada? Mas num fui eu que pisei no rabo dele?

Eu balancei a cabeça em negativa e a cara dela ficou tão fechada que me arrependi do desabafo.

Então, ela sapecou a minha orelha e a apertou bem forte, torcendo no sentido horário.

— Agora ocê vai aprender uma lição, seu ‘muleque’ danado.

Soltou minha orelha, pegou um pau e correu atrás de mim, com toda a força recobrada. Gritei bem alto pra ela parar, mas dessa vez ela não admirou-se com o berro que eu dei. E no final das contas, fui eu que fiquei admirado, bem admirado com a vitalidade da dona Chica.

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