A Padoca

Alguns passos ansiosos.
E famintos.
Padoca recém-inaugurada.
Meu bairro finalmente tem algo de bom.
- Um pão na chapa, por favor.
- Integral?
- Francês.
- Mas, integral?
- Integral?
Nem sabia que existia.
- Integral, então?
- Não, normal.
- Requeijão?
- Na chapa com requeijão?
Eu nem sabia que existia
Fico em silêncio.
- Com requeijão, então?
- Não! 
Desespero.
- Manteiga, por favor (quase falei pelo amor de deus)
Minha cabeça começa a doer.
Ela olha pro chapeiro e grita:
- Baixinho, um na chapa. Manteiga, do não integral.
Saudades das comandas.
- Me vê um pingado também.
- Pingado?
- Isso, pingado. Café, leite.
- Cappuccino?
Bufo. Sem querer
Ela faz cara feia. Não sei se sem querer.
Acho que ela nem sabia que existia.
- Isso, pode ser.
Ela grita pro balcão:
- Francilvânia, um cappuccino.
Olho pro balcão. Não pude evitar.
Francilvânia?
Nem sabia que existia.
Será que é com ipsilon?
- Tem açúcar, adoçante e demerara na mesa.
Ela enche a boca e se prolonga quando diz de me ra ra.
Franzo a testa. 
Me sento e aguardo.
Ai minha cabeça.
Dez minutos depois.
Cadê o meu pão e o meu pingado tipo cappuccino?
A atendente volta.
Sinto arrepios.
- Senhor, só integral mesmo.
Bufo de novo. De propósito.
Ela faz cara feia. De propósito, com certeza.
E completa:
- Não prefere mesmo com requeijão?
Nem respondo.
Ela aguarda.
E continua:
- Ah, esqueci de falar que tem também a opção de nutella.
- Esquece. Cancela tudo.
Saio sem pão e sem cappuccino.
Com raiva.
E dor de cabeça.
E saudades.
Saudades do pingado com pão na chapa.
Saudades de uma padoca.

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