À Luz de Velas

Faltava apenas uma hora para os convidados chegarem, quando acabou a luz na casa dos Cardoso. Caminhando de um lado para o outro na cozinha, lamentando a má sorte de ficar sem luz na véspera de Natal, dona Lourdes foi surpreendida pelo marido, o senhor Rubens, que surgiu com a caixa de fósforos em mãos. A salvação para a escuridão e para o cozimento do peru, que estava prestes a ir para o forno.

Naquele momento, dona Lourdes se questionava se seu maior problema era terminar de cozinhar à luz de velas, receber os convidados na penumbra ou o banho de água fria que ela estava prestes a tomar. Já o senhor Rubens tinha certeza de que seu maior desafio era manter as cervejas e o champanhe gelados durante toda a noite, problema que resolveu rapidamente com uma ida até o mercado no final da rua.

Assim que chegaram, os convidados encontraram a porta aberta e um bilhete, escrito à mão, colado à campainha inoperante: estamos sem luz, pode entrar. Ao entrarem, encontraram a sala toda iluminada por velas, que iam desde as brancas específicas para os dias de temporal, passando pelas velas de aniversário já usadas, pelas perfumadas, por algumas que boiavam em vidros até chegarem às velas de 7 dias. Com certeza teria iluminação até o final da festa. As crianças foram as que mais gostaram da novidade. O mais velho dos netos, chegado à pirotecnia, viu naquela fatalidade a chance de ter o melhor Natal da sua vida. Após dois guardanapos incendiados e mechas de cabelo derretidas, ele foi advertido a parar de brincar com fogo.

Quando as discussões sobre o perigo de se manter a porta aberta num bairro perigoso como aquele, sobre a probabilidade da casa ser incendiada até a meia-noite e sobre o cheio das velas perfumadas estarem causando náuseas e dores de cabeça, todos sentaram-se à mesa para o jantar natalino. Graças aos fósforos do senhor Rubens, o peru, as batatas e o arroz com passas estavam soltando fumaça. Saladas e tortas completaram a ceia, que ganhou até um ar mais requintado, com os castiçais improvisados.

Após o jantar, todos voltaram para a sala para a tão aguardada troca de presentes. O papai noel apareceu carregando um saco de embrulhos em uma mão e uma enorme lanterna na outra. As crianças se questionaram se alguém havia conseguido avisá-lo sobre a falta de luz naquela casa ou se o papai noel realmente era capaz de saber de tudo o que acontecia na véspera de Natal. A pouca luz foi até bastante providencial já que a caracterização do bom velhinho havia ficado um pouco a desejar.

Ansiosas e animadas, as crianças se sentaram perto da árvore de Natal para desembrulharem seus presentes e os exibirem aos demais convidados, que aguardavam espalhados pelos sofás e cadeiras. Alguns dos expectadores estavam realmente interessados nos conteúdos dos embrulhos brilhantes, outros estavam apenas cumprindo o ritual familiar.

De repente, a energia voltou na casa dos Cardoso. E as únicas luzes que se acenderam foram os pisca-piscas que circundavam todo o pinheiro, cuidadosamente enfeitado com bolas coloridas e laços vermelhos. As crianças bateram palmas, imaginando que aquilo fosse alguma mágica do papai noel. Surpreendidos, os adultos se levantaram e começaram a se abraçar. Eram as luzes de Natal.

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