A Devida Importância

Naquele dia ela acordou irritada. Da porta do quarto, olhou para trás e arremessou em minha direção algumas palavras pesadas. Ainda sonolento, me sentei na cama, catei as palavras arremessadas e coloquei-as lado a lado, uma a uma. E finalmente pude compreender a frase que até hoje não sai da minha cabeça: “você não dá a devida importância ao nosso amor”. Eu nem sabia que havia uma devida importância ou que pudesse estar devendo alguma coisa, mas resolvemos que ela estava certa.

No mesmo dia, eu comprei anel de brilhantes, um ramalhete de flores, a levei para jantar e fiz papel de bobo romântico quando me ajoelhei ao seu lado no meio do restaurante lotado com uma caixinha vermelha nas mãos. Ela fingiu surpresa e respondeu que sim, limpando os olhos com o guardanapo de pano manchado de batom. Depois da cena, teve até aplausos e bolo cortesia. Nós dois fingimos surpresa.

O assunto do jantar, que começou com o elegante e perverso froie gras e terminou com um café intenso e amargo, foi a escolha da data especial. A cada garfada, uma sugestão diferente, as quais recebi com igual excitação e em total concordância. Chegou um momento em que me repreendi por não ter aguardado o final do jantar para revelar a caixinha vermelha que eu levava no bolso. Quando a sobremesa já estava literalmente sobre a mesa e nenhum dia ideal parecia combinar com algum mês perfeito, voalá, surgiu a melhor combinação possível, como caída do céu. E nós selamos a escolha quase espiritual com um beijo sabor creme brulee.

Na semana seguinte, a data mágica foi gravada no ouro, 24 quilates, e eu agendei cartório para a semana anterior à festa, quando elevamos nosso amor à esfera cível. Na presença de testemunhas elegantemente trajadas, concordamos com cada palavra do juiz e confirmamos com sorrisos, apertos de mão e palavras firmes que estávamos prontos para aquela união, há anos concretizada. Com caneta Montblanc, registramos nosso amor perante a lei e, para não restar dúvidas, fiz publicar no jornal.

Mas não parou por aí. O melhor ainda estava por vir. Para elevar nosso amor à esfera religiosa, eu entrei na igreja de fraque ao som de Ave Maria. Teve tapete vermelho, flores, velas, violinista, órgão, bençãos e daminhas despejando pétalas de rosas. Fiz tudo como manda a tradição. E ela também. No altar, jurei amor eterno, respeito e fidelidade em todas as estações do ano, independentemente de nossa situação financeira ou estado de saúde, mortos ou vivos, repetindo palavra por palavra o que o padre ditava em tom solene, como se todas aquelas palavras fossem minhas. E só beijei a noiva quando foi dada a permissão.

Depois teve festa. Convoquei 400 testemunhas, com traje de gala completo, para que não restasse dúvida da importância da celebração. Contratei a banda mais animada da cidade e dancei a valsa feito Don Juan. O jantar começou nos canapés refinados e terminou na sobremesa açucarada. Teve bolo de cinco andares, champanhe e até doce embrulhado para levar para casa.

Três câmeras de última geração, estrategicamente espalhas pelo salão, captaram cada segundo do evento em imagens, e outras cinco fizeram mais de 3 mil fotografias. Estava tudo registrado para a posteridade, editado, gravado e impresso, mesmo que talvez ninguém os contemplasse posteriormente.

Agora, imagina como nosso amor se sentiu importante quando, ao final da festa, explodiram no céu estrelado 3 minutos ininterruptos de fogos de artifício de todas as cores, sons e formatos. O evento terminou em aplausos e lágrimas.

Na manhã seguinte, partimos para Paris, um clichê que garantiu algumas noites de sexo tórrido que acabavam com nós dois fumando na cama do hotel. Outro clichê. O ponto alto da viagem, em todos os sentidos, foi quando subimos a torre Eiffel. Lá em cima eu tive a sensação de ter elevado em vários metros a importância do nosso amor. Ela teve certeza. Vaidosa e confiante exibia em uma mão o brilhante e, na outra, o ouro 24 quilates com data gravada e tudo.

Quando a viagem terminou, voltamos para nossa antiga casa, nossa antiga rotina, nossos antigos hábitos. Confesso que se não fossem as novas panelas, torradeiras, ferros de passar e aquela fotografia em nossa cabeceira eu até poderia achar que tudo não tinha passado de um sonho, tamanha a semelhança da nova vida pós diamante, bolo de cinco andares e torre Eifel com a nossa vida pregressa.

Eu às vezes me pegava procurando o brilhante no dedo dela e a aliança no meu, só para ter certeza. Não sei se era um alívio, ver que estavam todos os anéis e todos os dedos. Então, eu olhava para ela tentando descobrir se ela estava mais feliz ou se me amava mais agora que meu nome roçava o anelar esquerdo dela. Eu suspeitava que ela também tinha a impressão de que aquilo tudo havia sido um delírio. E naquela manhã eu tive certeza.

Poucas semanas depois de ter agraciado nosso amor com toda a pompa e circunstância, depois tê-lo elevado a todas as esferas cabíveis, ela acordou novamente furiosa. Arrancou o lençol como se arrancasse a própria pele, a minha, é claro, se levantou da cama e foi até a porta do quarto. Se virou para mim e arremessou outras pesadas palavras sobre o lençol.

Fiz um escudo com o travesseiro, me virei para o lado e deixei as palavras baterem com força atrás de mim. Algumas foram amortecidas pelo travesseiro, outras atingiram em cheio a minha cabeça, mas fingi que nada estava acontecendo. Disse a mim mesmo que deveria ser apenas mais um delírio.

A verdade é que até hoje eu não sei se dei a devida importância ou a importância devida ao nosso amor. Mas suspeito que eu ainda esteja devendo algo. Ela tem certeza.

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